
Gente que fala!!
Às vezes, corro na esteira do prédio para perder calorias e acalmar a ansiedade. O bom de correr é ficar caladinha, você com você mesmo, silêncio total... Mas Firmino, um funcionário do meu prédio, não acha isso, não.
— Correr cansa, né?
— Arrã.
— E faz suar. Mas a senhora sua demais, né, dona? Parece até que tem uma torneirinha dentro da senhora. Até embaixo do sovaco a senhora sua. E isso é coisa de homem. Com todo o respeito.
Irritada, não consegui dizer mais nada a não ser:
— Suar é bom.
— Não entendo corrida. Acho um esporte meio besta, sabe? Que graça tem correr?
Ainda mais numa esteira de prédio, olhando pro nada... Mas tem maluco pra tudo. Não que a senhora seja maluca, a senhora tá é cuidando da forma, né? E a senhora precisa mesmo perder uns dois quilinhos. Vai ficar no ponto.
Fiquei muda, apenas fulminei o cara com os olhos.
— A senhora quer que ligue um pouquinho o ventilador?
— Não, obrigada — agradeci, tentando me compenetrar no exercício.
— A senhora sabe que esse ventilador é uma porcaria, né?
— Não — respondi, seca.
— Já quebrou, já consertaram, quebrou de novo... Mas ele é coisa de americano, aí já viu, né?
— Já vi o quê?
— Ué, ventilador e televisão têm que ser japoneses. É no Japão que eles sabem fazer coisa que funciona, a senhora não acha?
Ele não podia monologar em vez de dialogar? Precisava pedir opinião? É tão difícil correr e falar ao mesmo tempo!
Apenas balancei a cabeça, ofegante, concordando com ele.
— Tô namorando uma moça que é quase do seu tamanho, naniquinha, naniquinha.
Delícia inenarrável ouvir que sou naniquinha de um quase-estranho às dez da manhã de sábado. Amarrei a cara, num claro sinal de que queria cortar aquele conversê.
Ele não captou.
— Ela é manicure. Também atende em casa, viu?
— Arrã...
— É Nyramar o nome dela. Com ípslon. Era com i, mas ela acha mais chique o ípsilon.
— Arrã — tentei mais uma vez bancar a antipática.
— Tenho o telefone dela aqui, a senhora quer?
— Não, obrigada.
— A senhora sabia que tem gente que o pé baba?
Não! Eu não sabia e não precisava saber!, pensei, irritada.
— Ela contou que tem pé de madame com tanta inhaca e tanto sebo que a sujeira escorre e gruda nas mãos das manicures. É baba de inhaca.
— Olha só... — reagi, nojinho puro, com o café da manhã embrulhando meu estômago. — A Nyramar é prendada, graciosa, limpinha, não é bonita, mas também não é feia... Tem cara de azeitona, sabe?
— Não — fui sincera. Que conversa era aquela, meu Deus do céu?
— O problema da Nyramar é que ela é bigoduda. Queria tanto que ela tirasse o bigode, mas como é que a gente diz isso pra uma pessoa?
— A gente não diz isso para uma pessoa, Firmino! — opinei, irritada com a pergunta e com o bigode da nanica da Nyramar.
— Bom, ela pode ser bigoduda, mas cuida das minhas unhas. Corta, lixa, tira cutícula... Uma beleza! E ainda prometeu acabar com a minha unha encravada. A senhora quer ver a unha? — perguntou, já tirando a sandália e levantando a perna.
Diante da cena, diminuí o ritmo e, mesmo sendo uma pessoa fofa, arrumei uma desculpa e fui correr na praia. Torcendo para não cruzar com nenhum tagarela pelo caminho.



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