sexta-feira, 21 de agosto de 2009



Fala sério vó!

A minha avó Dalva tem ido a vários espetáculos teatrais por mês. Vai de van, com outras velhinhas que ela prefere chamar de “brotinhos”. Outro dia, me chamou para ir com ela.

— Você vai amar! E ainda vai conhecer minhas amigas, são todas divertidíssimas. E cheirosas, arrumadinhas, limpinhas.

Topei. Achei que seria bacana entrar no universo da minha avó fofa. Na van, o assunto era animadíssimo:

—Viram que maravilha o novo remédio para artrite? — perguntou uma senhora de cabecinha branca-branca-branca.

— Aposto que não é melhor do que o que eu descobri para catarro preso — contestou outra, de cabelos vermelhos

— Ih! Que papo de velho! Olha a minha neta aqui, gente, ela vai achar que somos chatas, que só falamos de remédio e doença. E nós somos um arraso, um desbunde! Por exemplo, todas aqui gostariam de apertar a bunda do Brad Pitt. É ou não é, mulherada? É isso que a gente tem que conversar! — comentou minha avó, para delírio das amigas.

Os “brotinhos” se animaram com a retaguarda do marido da Angelina e teceram comentários que não reproduzirei aqui porque ruborizo só de lembrar deles. Rolei de rir com a empolgação e nem vi o tempo passar. Chegamos ao teatro e ocupamos quase toda a fila J. Sentei-me entre minha avó e dona Hemengarda, a da cabecinha branca-branca-branca.

O terceiro sinal tocou e o silêncio na platéia imperou. Mas assim que a primeira atriz pisou o palco, dona Hemengarda cutucou minha avó e comentou, com voz de megafone:

— Olha a Rogéria! Como ela está bem! Magra, peitão... E que cabelo!

Achei que minha avó cortaria o assunto com um sussurro qualquer. Que nada. Descobri ali que dona Hemengarda era um tanto surda. E que minha avó não fazia o tipo calada no teatro.

— Que Rogéria, Hemengarda? É a Glória Menezes, não está vendo?

Eu no meio. As pessoas em volta já fazendo “Shhh!” para as duas.

— Glória Menezes? Faz-me rir! — soltou Cecília, sentada ao lado da minha avó. — A Glória Menezes não faz essa peça.

Claro que faz! Li no jornal! — Leu errado, Dalva.

— Xiii... Vim à peça errada, então. Não acredito que fiz isso. De novo! — reclamou minha avó.

Está caduca... — implicou uma outra, muda até então.

O espetáculo rolando no palco, a vergonha me corroendo por dentro... Então disse baixinho:

— Beleza, gente, a Glória e a Rogéria não fazem a peça, mas tenho certeza que é muito boa.

— Que foi que ela disse, Dalva? — berrou Cecília.

— Nada, ela é uma criança, não entende nada de teatro

— disse mais alto ainda dona Hemengarda.

— Não fala assim, minha neta é muito culta — bronqueou minha avó. — Não liga para essas velhas mal-educadas, Malu.

— Vó, fala baixo, não cai na pilha delas.

— Pilha? Não entendi...

— Não cai na onda delas! Não cai na conversa delas! Isso que ela quis dizer, ô, Dalva! Não entende nada de juventude, fala sério! Que mulher desatualizada! — debochou dona Hemengarda.

— Você me respeita, hein? Desatualizada é a...

Afundei na cadeira, morrrta de vergonha, louca para a peça acabar.

E pensar que eu achei que na velhice as pessoas ficavam mais calmas, mais pacatas. Ledo engano. Elas discutiram todo o tempo, sem a menor cerimônia. Ao sair, desprezando os olhares irritados dos outros espectadores, voltaram a ser melhores amigas.

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