terça-feira, 14 de julho de 2009

Ora, pois!

Thalita Rebouças


Mesmo nunca tendo pisado em Portugal, aprendi com meu pai − que já foi várias vezes à terrinha − que se gostamos muito no Brasil, gostamos imenso na terra de Camões; se queremos classificar algo de cafona, ou brega, melhor dizer que é piroso; quando achamos um lugar legal, melhor afirmar que o sítio é fixe e, quando queremos andar de trem, melhor perguntar onde se pega o comboio.

Tive uma amostra da delícia que é Portugal com a Helena, amiga do papai que é jornalista e ficou hospedada na casa dele durante uma semana. Loura, bonita, falante, expansiva, alegre e engraçada, antes de ser uma portuga fofa, Helena é turista e, como toda turista...

− Malu, podes me levar a uma feira dessas de rua?

− Levo, claro. Tem alguma coisa em especial que você queira?


− Um Cristo.

Ups! Um Cristo?, pensei, traduzindo com minha fisionomia todo o asco que senti ao imaginar uma daquelas medonhas estatuetas de Cristo Redentor decorando a casa de alguém.

− Fala sério, Helena! Por quê?

− Porque é giríssimo.

− Giríssimo é tipo lindíssimo?

− Pois.

− Estatuetas de Cristo são tudo, menos giríssimas, sua doida!

− brinquei.

− Compreendi... tu achas piroso, pois não?

− Piroso é brega, né? Então eu acho muuuito piroso.

− Ah, mas eu vi um no aeroporto que era muito giro, parecia que estava dentro de um cubo de gelo, é pequenino e fácil de levar.

Tá, né? Fazer o quê? Se ela quer um Cristo, façamos a vontade da gaja. Fomos para a feira.

− Que tal este aqui, de madeira?

− Estás louca? Este é muito fuleiro! Todos desta barraca são fuleiros.

− Fala baixo, mulher! Fuleiro aqui é a mesma coisa que em Portugal. Vagabundo, feio, de má qualidade!

− Ai, é?

− É! - respondi, às gargalhadas, fugindo do vendedor dos Cristos "fuleiros", que nos olhava muito zangado.

Rodamos a feirinha inteira e meia hora depois, ela encontrou seu Cristo no cubo. Medonho como os outros, mas ela abriu um sorriso tão feliz que comecei a repensar o que era brega, o que era bonito... Afinal, a beleza está nos olhos de quem vê, ora, pois!

Senti uma felicidade imensa ao perceber que o que a Helena queria era ir pra Lisboa com o lindíssimo/ giríssimo monumento-símbolo do Rio, cidade que ela amou tanto que quis levar um pedacinho pra casa. Sinal de que, apesar de tudo, o Rio de Janeiro continua encantador. E lindo, muito lindo.

Nenhum comentário: