sexta-feira, 14 de agosto de 2009


Fala sério, pai!

Thalita Rebouças

Sabe aquele dia em que seu pai acorda se achando humorista? Fica se exibindo com piadinhas infames e rolando de rir dele mesmo? Bota músicas bregas e te puxa para dançar, no meio da sala, como se aquilo fosse a coisa mais hilariante do mundo? O dia em questão era dia de churrasco do Ilan.

O cara fazia os churrascos mais badalados da escola e só chamava gente interessante, descolada, uma mistura muito legal de pessoas - a maioria mais velha que eu. U-hu! Primeira vez que eu era convidada. E ainda podia levar uma amiga.

− Alice, quem te disse a maluquice de que Alice não rima com Berenice? É muita sandice! - exclamou o piadista, assim que ela entrou no carro.

− O-oi pra você também, tio - ela disse, sem graça, enquanto meu pai ria com o corpo todo. - O que é que tá rolando, Malu?

− Ele acordou engraçado, hoje.

− Puuutz... - resignou-se. - Sei como é isso...

− Filha minha é pérola rara, marmanjo que se aproxima, leva tapa na cara. Rarrááá! - ele rolou de rir da incrível piada-verso.

Quando chegamos, me ajoelhei com um único e nobre objetivo: impedir que ele entrasse com a gente no prédio.

− Claro que vou entrar! Preciso ver a cara desses seus amiguinhos mais velhos.

− Fala sério, pai!

Entramos no play e logo fomos fisgados pelo cheiro da carne.

− É churrasco de mauricinho, com churrasqueiro! Quem é que contrata alguém pra fazer churrasco? Que vexame! Vamos lá, quero ver de perto essa palhaçada.

Depois de desfilar com meu pai, observada por todos, com a sensação de que aquele dia não podia piorar...

− Pelópidas! É você, Pelópidas?

Sim, existe um cara chamado Pelópidas e, claro, ele era amigo do meu pai.

− Você tinha mesmo que virar churrasqueiro profissional. Seu churrasco sempre foi o melhor! Dá cá um abraço!

Pronto, meu dia estava oficialmente arruinado. Depois de me forçar a apresentá-lo para o Ilan, meu pai botou um chapéu de mestre-cuca, e se meteu a fazer churrasco. Continuou com seu "zero-engraçado" repertório de piadas, disse para todos os convidados que carne mal passada me dava piriri ("o que é bom, porque ela adora ler no banheiro"), e cortava tudo bem picadinho para mim, porque eu era a "quianxa do papai".

− Churras é comigo mesmo, tchurminha! - gritava, se achando parte da galera.

No fim das contas, apesar do churras, de tchurminha e de muitos outros micos, nós dois nos divertimos bastante. Ele mais que eu, que não pude beijar ninguém e ainda ganhei o apelido de "rainha" (porque vivia no trono). Mas a carne estava ótima. O meu pai e Pelópidas, juntos, eram realmente "uma dupla da pesada", como ele disse umas 27 vezes durante a tarde.

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