sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Elvis não morreu!!

Eram duas da manhã quando eu saía com a Alice de um social na casa da Nanda e resolvi passar no botequim da esquina pra comprar um chiclete. Eis que, para minha surpresa, surge um cara alto, topete, boca fina, olhos verdes pequenos e caídos, cabelo pintado de preto e roupa branca com detalhes em dourado. Pára no balcão e pede uma água sem gás. Era ele, sem dúvida. Mas não, não podia ser. Ele tinha morrido!

- Elvis Presley! - embasbacou- se o cara do balcão.
- Eu mesmo - respondeu em português claríssimo.
Olhava pra Alice espantada quando chegou um fotógrafo tirando fotos de todos os ângulos.
- Elvis não morreu! Elvis não morreu! - gritava, enquanto disparava flashes por todos os lados. - E eu tenho a foto exclusiva! Tô rico!
Elvis sorria. Para os poucos bebuns do botequim, parecia normal ver o rei do rock ressuscitado, num boteco pé de chulé pedindo água no balcão.
- Sentaí, Elvis! - pediu um cara.
- Porque se você é fantasma, é fantasma camarada - afirmou outro.
- Toma um chope com a gente e conta o que ficou fazendo esse tempo todo. A gente achou que tu tinha morrido, cê sabe, né? - comentou um terceiro, com a maior naturalidade.
- O mundo inteiro achou que você tinha morrido - intrometeu-se Alice, ainda com os olhos arregalados.
Elvis puxou uma cadeira e sentouse. O maior astro de todos os tempos estava entre nós, com a mesma cara, o mesmo nariz e o mesmo charme.
Não era um sósia, não era um cara voltando de uma festa à fantasia. Era ele. Meu Deus, era mesmo! Meu pai ia ter um treco se soubesse que seu ídolo estava bem ali na minha frente.
- Agora faço shows no subúrbio - começou Elvis. - Todos lá acham que sou sósia de mim mesmo, o que é ótimo. Moro numa casa em Brás de Pina e durante o dia cuido dos quintais da vizinhança. De graça, claro, porque não preciso de dinheiro. Tenho muito!
- Obrigado, meu Deus, pelo furo de reportagem! - agradecia o fotógrafo.
- Fala sério! Prova que você é o Elvis! - pedi.
Ele se levantou e cantou Tutti- Frutti, um de seus maiores sucessos. Voz inconfundível, requebrado inconfundível. De repente, me tirou para dançar. E me agarrava, me rodopiava, me puxava pra perto dele, me olhava nos olhos... Ihhh, o Elvis tá dando em cima de mim, pensei. E estava. Depois do show e dos aplausos, ele pediu:
- E meu beijo na boca?
- Não! Você é velho pra mim. E tá todo suado! Eu só quero seu autógrafo. Meu pai vai morrer de felicidade.
- Não tem autógrafo sem beijo.
Que Elvis Presley mais safado!, irritei-me.
- Beija! Beija! - gritaram os bebuns.
Eu não queria beijar o Elvis. E se ele fosse um morto-vivo, um zumbi? Não queria beijar defunto! Ele se aproximou para me beijar, me agarrou com força, o fotógrafo registrando tudo, eu ia virar manchete das revistas de fofoca, que mico! E pensar que só queria um autógrafo para o meu pai.
- Anda, Maria de Lourdes, o despertador está tocando há um tempão! Está na hora da aula.
Ufa! Era um sonho. Elvis morreu mesmo.
Pena que não era vida real... Meu pai ia amar saber que eu tinha dançado com o rei do rock'n'roll.

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