
Chantagem, não!
— Não vai rolar. Não insiste.
— Por quê?
— Porque não sou louca.
— Por quê?
— Porque nasci assim, normalzinha da silva.
— Assim vou ficar magoada, você não confia em mim?
— Não!
— Magoei.
— Caguei!
— Olha a palavra horrível e desnecessária, Malu! Deixa, vai! O que é que tem?
— Não insiste, não vou deixar você cortar meu cabelo, Malena!
— Por que não?
— Porque, entre outras coisas, você é uma criança!
— Mas sou talentosa — disse minha irmã, zero modesta.
— E se eu ficar com cara de cachorro poodle?
— Poodle é tão fofito!
— Poodle é ridículo.
— Se eu te deixar com cara de poodle pode ficar com odinho de mim. Vou entender.
— Odinho? Vou ficar com odião! Ódio mortal de você! Corto relações para o resto da vida!
— Mas sonhei que eu era uma cabeleireira muito famosa, uma celebridade mundial, a deusa das tesouras, salão em Nova York, fila na porta dobrando a esquina... Até a Britney Spears cortava comigo.
— Ela estava careca até outro dia.
— Não no meu sonho. No meu sonho ela estava cabeludésima.
— Era peruca. Olha aqui, Malena, sonhos são idiotas, não têm significado. Além do mais, você nunca cortou um cabelo na vida. Posso saber por que cismou logo com o meu?
— Porque você tem cabelo ondulado, cabelo ondulado deve ser mais fácil de cortar. E ele tá uma palha, desidratado, sem brilho, sem corte, com aspecto sujinho... Uma tesourada ia fazer bem para ele.
— Muito obrigada pelos elogios, mas prefiro cortar com o meu cabeleireiro mesmo.
— Eu faço de graça!
— Nem se me pagasse eu deixaria você cortar meu cabelo.
— Deixa, vai! Só as pontas.
— Não, não e não!
Diante da minha negativa, era hora do golpe baixo.
— Vamos combinar o seguinte: você me deixa cortar seu cabelo e eu não conto pra ninguém que você ficou com o Bolha.
— Ninguém pode saber que eu fiquei com o Bolha! É segredo nosso! Ele é o garoto mais feio e mais fanho do mundo! E fala cuspindo! E tem bigode ralinho!
— Pior! Acha legal ter aquele bigodinho! Se acha homem por causa do bigode ralinho!
— Pois é! E usa pochete! E dança em frente ao espelho quando está sozinho em casa.
— E conta que dança em frente ao espelho!
— Você não teria coragem de fazer isso comigo!
— Quem disse?
— Você sabe, só fiquei com o Bolha porque estava carente!
— Que nada! Você queria mesmo saber como era beijar de língua.
— Pois é, faz tanto tempo... Não tem porque você fazer isso comigo! Vai acabar com a minha reputação! Que chantagem horrível, Malena!
— Chantagem, não! Quero só uma prova de amizade. Se você me ama de verdade vai me deixar cortar seu cabelo.
Não precisei pensar muito.
— Tá bom. Mas só dois dedinhos, combinado?
No dia seguinte, ganhei o apelido de poodle de algumas amigas implicantes, fui ao meu cabeleireiro acertar o estrago e fiquei umas três semanas sem conseguir olhar na cara da pirralha.
Mas ninguém nunca soube que eu fiquei com o Bolha.



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